Governados ou governantes

Um erro fundamental de ocupantes de cargos eletivos é a dedicação exclusiva àqueles que o elegeram. Se esquecem de que, embora tenham sido escolhidos por apenas uma parcela da sociedade, eles estão lá para servir a todos. No entanto, há um erro mais sutil e de consequências igualmente graves: considerar que aquela parcela que os elegeram pensa exatamente como eles e aprova todas as suas ações. Isso é especialmente grave em cargos do executivo, que concentram em um único eleito os votos dos mais variados motivos.

Tanto eleitos quanto eleitores têm que manter em mente que eleições não são um cheque em branco assinado. Eleitos devem conquistar diariamente aqueles que o colocaram lá (e também os que não colocaram), agora não com propagandas e discursos vazios ou demagógicos, mas com atitude. Devem entender que aqueles que lhes deram seus votos não são uma massa homogênea com idéias e valores congruentes aos seus. Ele deve buscar conhecer e entender os anseios mais variados dispersos nessa massa e dar uma resposta positiva para eles. Do mesmo modo, eleitores não devem “lavar as mãos” e deixar rolar (ladeira acima ou ladeira abaixo), como se não tivesse mais responsabilidade sobre o bem público. A responsabilidade pelo apoio, pela cobrança e por se fazer ouvir é de todos, de quem votou no eleito, de quem votou nos derrotados e de quem se absteve. Colocar a culpa nos outros é a assunção da incapacidade de resolver seus próprios problemas e a abdicação do direito de tê-los resolvidos.

Isso não tem sido respeitado por nenhuma das partes e nos trouxe ao momento singular em que certos ocupantes de cargos públicos admitem haver “um afastamento entre a classe política e a sociedade”, mas ao mesmo tempo, esses mesmos “representantes do povo” que admitem não estar representando o povo não largam o osso (e não lhes têm o osso tomado).

Enquanto as pessoas não assumirem seus papéis, não adianta resmungar, xingar, perder amizades na Internet, invadir escolas, culpar x, y ou z. Porque a solução dos problemas está muito mais em ouvir do que em falar.

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Reduzir não resolve, mas não reduzir também não.

Eu entendo o discurso vitimista das pessoas contrárias à tão (levianamente) discutida redução da maioridade penal no Brasil. Vejo todos os dias o que a miséria e o abandono do Estado faz com muitas pessoas (não apenas aos adolescentes entre 16 e 18 anos). Também me sinto triste e impotente por estar dentro do sistema que poderia ajudar a solucionar muitos problemas relativos à miséria e simplesmente não poder realizar nem 1% do meu potencial para ajudar.

Me alivia, no entanto, observar que, apesar do abandono estatal (que, mesmo com anos desse populismo barato, continua absurdamente abrangente), apesar das oportunidades reduzidas, apesar da falta de educação (mesmo com toda “pátria educadora”), a esmagadora maioria dos pobres e miseráveis (que são humanos e, como qualquer humano, cometem erros, são incoerentes, tendem ao egoísmo e são gente como a gente) não descambam para a criminalidade. A questão não é (apenas) miséria ou educação, a questão é valores. Não foi na escola que aprendemos que não se deve matar, sequestrar e estuprar.

E também não estamos falando de crianças, eu, pelo menos, embora não estivesse totalmente amadurecido (e não devo estar até hoje), já tinha decidido em que trabalharia para sobreviver. Escolhi meio no escuro, mas tinha total convicção de que não seria no crime organizado ou no desorganizado. E não sei vocês, mas com idade entre 16 e 18 anos o único grande “crime” que pratiquei achando que era uma atitude normal foi votar em (e felizmente não eleger naquela ocasião) um sujeito que anos depois foi cassado por corrupção. E tenho certeza de que mesmo aquelas meninas que apanham dos país em casa, matam aula pra “namorar” e que cantam funk proibidão na rua têm consciência de que matar, por exemplo, é uma atitude que não tem volta.

Com isso quero dizer apenas o seguinte: os argumentos de falta de educação e de oportunidades são louváveis e verdadeiros, mas estão longe de ser determinantes nessa discussão. Nem vou entrar no mérito de que, com redução ou sem redução da maioridade penal, o desenvolvimento da educação e a oferta de oportunidades no Brasil tendem a continuar piorando (apesar das propagandas governistas).

Também cabe observar que na semana que vem o Estatuto da Criança e do Adolescente completa 25 anos e ao longo desse tempo, o problema de crimes cometidos por menores de idade só faz aumentar. O que evidencia, no mínimo, que algo está errado nessa forma de lidar com esse problema.

Por outro lado, concordo também que a simples redução não chega perto de resolver o problema. Mas, sinceramente, posto o que disse acima, não acho que a intenção seja resolver o problema, mas simplesmente mudar um paradigma legal. Acho que a simples redução da maioridade penal é uma tentativa de solução radical e simplista. Deveríamos discutir uma nova abordagem, não existe um número mágico, há gente com 17 anos mais madura do que gente com 50 anos. Junto a isso, há a mais variada gama de crimes, com as mais variadas gravidades, causas e consequências. Sou favorável à eliminação do conceito de maioridade penal. A penalidade (ou “recuperação” ou “ressocialização” ou chame como quiser) deve levar em conta não apenas a idade, mas também e principalmente o crime cometido de maneira combinada.

Enfim, acho toda essa discussão de redução da maioridade penal inócua. E esse fla-flu de ideologias, de esquerda e direita, de “progressistas” contra “conservadores”, de vitória ou derrota de partido X ou Y não ajudam nem um pouco e infelizmente é só isso o que move quem realmente vai decidir o assunto, nossos parlamentares. Ninguém quer realmente discutir e solucionar os problemas, querem apenas se impor.

Peter Pan
“Peter Pan é um pequeno rapaz que se recusa a crescer e que passa a vida a ter aventuras mágicas.”

A falsa discussão

Por que a discussão de qualquer assunto vem sempre imersa em desinformação, mentiras, factoides, metáforas e comparações estapafúrdias e cretinas? Não importa se o assunto é futebol ou maioridade penal, tem sempre alguém para disseminar uma informação falsa para reforçar seu ponto de vista. No fim, qual é o valor de um ponto de vista que se sustenta com mentiras e informações retorcidas? E o que se ganha se ele prevalecer? Perde-se tanto para “ganhar” uma simples discussão, apenas por uma questão de orgulho e autoafirmação… Apenas por um exercício de raciocínio, de disputa de egos e de quem tem o melhor preconceito. Pois se as pessoas se prestam a mentir para si mesmas e para as outras, o objetivo nunca foi a busca de uma solução para o problema discutido. Eu sugeriria um exercício de consciência em substituição a esse “livre pensar”.

“Beware of false knowledge; it is more dangerous than ignorance.” – George Bernard Shaw

(Há uma certa ironia no autor da citação que inspirou este texto.)

BernardShaw
“Cuidado com o falso conhecimento, é mais perigoso do que a ignorância.” – George Bernard Shaw

Como cães e gatos

Será que temos que viver sob cartilhas preestabelecidas?! Será que não se pode, por exemplo, ser contra a redução da maioridade penal e a favor do aborto? Será que não se pode ler Veja e Carta Capital? E concordar com ou discordar de ambas? Ou mesmo ora concordar ora discordar de uma ou de outra? Ou achá-las duas porcarias propagandistas. Será que não se pode ser “progressista” em um assunto e “conservador” em outro? Será que é mesmo impossível haver ricos maus e bons, bem como pobres maus e bons?

Será que é mesmo necessário que alguém junte idéias em um pacote fechado para eu propagar ou condenar? Será mesmo necessário, primeiro verificar o discurso do pastor, do líder partidário ou do presidente do sindicato, do articulista ou blogueiro preferido para saber o que eu acho, o que é certo ou o que é errado? Será que preciso de rótulos para ser ouvido ou censurado?

A verdadeira politização não está em se fixar em uma ideologia ou em um pacote de idéias, mas em buscar conhecimento daquilo que lhe é estranho. A verdadeira democracia não está apenas na liberdade de se manifestar, mas principalmente na responsabilidade de ouvir e entender aquele que, a princípio, lhe é discordante.

Que tal encerrarmos essa discussão entre surdos, rasgar essas cartilhas, abandonar essa mesma velha opinião formada sobre tudo? Já passou da hora de parar de “compartilhar” e finalmente responder “No que VOCÊ está pensando?”. Preocupemo-nos mais com o que pensamos do que com o que pensam de nós. Em um universo com quatro dimensões (conhecidas), parece uma enorme limitação viver preso em um eixo apenas com esquerda e direita.

Lição de casa:
Pesquise e responda: A quem interessa que nos mantenhamos como cães e gatos?

Boucherie canine et feline
“Açougue canino e felino.”