Si vis amare ama

​”Se quer ser amado, ame.”

Não há meio termo, não há jeitinho. Não se trata apenas de “dar para receber”, mas de receber apenas aquilo que é dado.

A terceira lei de Newton não é de Newton, é da Física, Isaac Newton apenas a descreveu. “Física” do grego φύσις (físis), Natureza. O princípio da ação e reação é uma lei da Natureza. Portanto, rancor não pode te trazer nada de bom. Alimentar o ódio, não pode trazer nada senão mais ódio, só que contra você.

Mas apenas não alimentar o ódio pode não ser o suficiente. Esperar que a mudança venha dos outros, pode deixar todos presos à primeira lei da Natureza descrita por Newton, a lei da inercia. Se nenhuma força for aplicada ao sistema, tudo continua como está. E das diversas forças que você tem dentro de si, o amor, em suas mais diversas acepções, é a única capaz de explorar a terceira lei a seu favor. Não seja apenas um corpo inerte na natureza, apenas respondendo naturalmente aos estímulos, respondendo ao ódio com ódio, ao desgosto, com desgosto. Na base do olho por olho, dente por dente, acaba todo mundo cego e banguela. Você tem a força necessária para mudar a ordem das coisas a seu favor, use-a.

Só certifique-se de que está imprimindo essa força na direção certa, pois ainda há a segunda lei descrita por Newton.

P.S.: Perdoe os clichês.

O óbvio ululante que ulula, mas não é exatamente óbvio.


Tubarão sorveteiro
“Estudo indica que aumento de venda de sorvete atrai ataques de tubarão.”

Em tempos de memes, #hashtags, 👍, compartilhamentos e RTs, de textões com 460 palavras e testículos de 140 caracteres na “grande mídia manipuladora”, na “mídia alternativa” e nos blogs “independentes” eventualmente (quase sempre) a lógica e a obviedade que nos saltam aos olhos, que nos conquistam, que nos fazem pensar “é claro!” pode nos parecer muito coerente. Mas normalmente essa coerência não é a única possível nos “fatos” apresentados.

Em uma figurinha com meia dúzia de palavras é muito fácil chegarmos à conclusão que nos convém. Em uma frase solta é muito fácil ver um “crime” de ódio ou uma observação “perspicaz”. Temos o hábito de não observar a partir de uma visão mais global, não buscamos mais informação, por pura preguiça ou pela simples ânsia de nos confortar e autoafirmar na mesma velha opinião que temos formada sobre tudo ou ainda pela inocência de pensar que achamos justificativa para nossas fantasias e utopias de um mundo melhor.

Um princípio básico em estudos estatísticos que costuma fugir aos olhos dos leitores e dos autores (muitas vezes propositalmente) é “Correlação não é causalidade[en]”. Muitas vezes, em análises superficiais e eventualmente maliciosas, observa-se dois fatos (aparentemente) correlatos, e, como que fosse muito óbvio, determinam que um é causado pelo outro. No entanto, nem sempre o óbvio é o mais correto. Em artigos, memes, tweets, etc. normalmente se quer comprovar ou justificar uma assertiva, e isso leva a acreditar que, se A ocorre concomitantemente a B, A está causando B, porque “parece o mais óbvio”, porque “só pode ser!” ou… porque é o que se quer provar. E por conta disso (propositalmente ou não) desconsideram as outras 3 possibilidades:

  1. B pode estar causando A;
  2. Pode haver uma terceira variável, C, causando A e B;
  3. ou a concomitância pode ser uma completa coincidência.

Para piorar a situação, não estamos apenas vulneráveis à má fé ou avaliação pobre de determinados autores. Mesmo quando há métodos científicos e profissionais de avaliação e validação de dados, as conclusões tomadas a partir dos mesmos dados podem variar muito dependendo da metodologia empregada. A revista Nature publicou[en] (resumão em pt-BR) recentemente um estudo mostrando que se pode comprovar qualquer coisa usando um mesmo conjunto de informações e que a publicação de pesquisas conclusivas sem a apresentação detalhada da metodologia aplicada para se chegar àquela conclusão pode não ter nenhum valor.

Enfim, quando lhe disserem que “contra fatos não há argumentos” e/ou antes de aceitar algo como verdade absoluta só porque você (acha que) concorda, informe-se sobre quais fatos estão sendo considerados e quais estão sendo negligenciados… e certifique-se de que isso que está sendo apresentado como fatos não é na verdade apenas resultado de mais argumentos. Duvide do óbvio.

A falsa discussão

Por que a discussão de qualquer assunto vem sempre imersa em desinformação, mentiras, factoides, metáforas e comparações estapafúrdias e cretinas? Não importa se o assunto é futebol ou maioridade penal, tem sempre alguém para disseminar uma informação falsa para reforçar seu ponto de vista. No fim, qual é o valor de um ponto de vista que se sustenta com mentiras e informações retorcidas? E o que se ganha se ele prevalecer? Perde-se tanto para “ganhar” uma simples discussão, apenas por uma questão de orgulho e autoafirmação… Apenas por um exercício de raciocínio, de disputa de egos e de quem tem o melhor preconceito. Pois se as pessoas se prestam a mentir para si mesmas e para as outras, o objetivo nunca foi a busca de uma solução para o problema discutido. Eu sugeriria um exercício de consciência em substituição a esse “livre pensar”.

“Beware of false knowledge; it is more dangerous than ignorance.” – George Bernard Shaw

(Há uma certa ironia no autor da citação que inspirou este texto.)

BernardShaw
“Cuidado com o falso conhecimento, é mais perigoso do que a ignorância.” – George Bernard Shaw

Como cães e gatos

Será que temos que viver sob cartilhas preestabelecidas?! Será que não se pode, por exemplo, ser contra a redução da maioridade penal e a favor do aborto? Será que não se pode ler Veja e Carta Capital? E concordar com ou discordar de ambas? Ou mesmo ora concordar ora discordar de uma ou de outra? Ou achá-las duas porcarias propagandistas. Será que não se pode ser “progressista” em um assunto e “conservador” em outro? Será que é mesmo impossível haver ricos maus e bons, bem como pobres maus e bons?

Será que é mesmo necessário que alguém junte idéias em um pacote fechado para eu propagar ou condenar? Será mesmo necessário, primeiro verificar o discurso do pastor, do líder partidário ou do presidente do sindicato, do articulista ou blogueiro preferido para saber o que eu acho, o que é certo ou o que é errado? Será que preciso de rótulos para ser ouvido ou censurado?

A verdadeira politização não está em se fixar em uma ideologia ou em um pacote de idéias, mas em buscar conhecimento daquilo que lhe é estranho. A verdadeira democracia não está apenas na liberdade de se manifestar, mas principalmente na responsabilidade de ouvir e entender aquele que, a princípio, lhe é discordante.

Que tal encerrarmos essa discussão entre surdos, rasgar essas cartilhas, abandonar essa mesma velha opinião formada sobre tudo? Já passou da hora de parar de “compartilhar” e finalmente responder “No que VOCÊ está pensando?”. Preocupemo-nos mais com o que pensamos do que com o que pensam de nós. Em um universo com quatro dimensões (conhecidas), parece uma enorme limitação viver preso em um eixo apenas com esquerda e direita.

Lição de casa:
Pesquise e responda: A quem interessa que nos mantenhamos como cães e gatos?

Boucherie canine et feline
“Açougue canino e felino.”