Governados ou governantes

Um erro fundamental de ocupantes de cargos eletivos é a dedicação exclusiva àqueles que o elegeram. Se esquecem de que, embora tenham sido escolhidos por apenas uma parcela da sociedade, eles estão lá para servir a todos. No entanto, há um erro mais sutil e de consequências igualmente graves: considerar que aquela parcela que os elegeram pensa exatamente como eles e aprova todas as suas ações. Isso é especialmente grave em cargos do executivo, que concentram em um único eleito os votos dos mais variados motivos.

Tanto eleitos quanto eleitores têm que manter em mente que eleições não são um cheque em branco assinado. Eleitos devem conquistar diariamente aqueles que o colocaram lá (e também os que não colocaram), agora não com propagandas e discursos vazios ou demagógicos, mas com atitude. Devem entender que aqueles que lhes deram seus votos não são uma massa homogênea com idéias e valores congruentes aos seus. Ele deve buscar conhecer e entender os anseios mais variados dispersos nessa massa e dar uma resposta positiva para eles. Do mesmo modo, eleitores não devem “lavar as mãos” e deixar rolar (ladeira acima ou ladeira abaixo), como se não tivesse mais responsabilidade sobre o bem público. A responsabilidade pelo apoio, pela cobrança e por se fazer ouvir é de todos, de quem votou no eleito, de quem votou nos derrotados e de quem se absteve. Colocar a culpa nos outros é a assunção da incapacidade de resolver seus próprios problemas e a abdicação do direito de tê-los resolvidos.

Isso não tem sido respeitado por nenhuma das partes e nos trouxe ao momento singular em que certos ocupantes de cargos públicos admitem haver “um afastamento entre a classe política e a sociedade”, mas ao mesmo tempo, esses mesmos “representantes do povo” que admitem não estar representando o povo não largam o osso (e não lhes têm o osso tomado).

Enquanto as pessoas não assumirem seus papéis, não adianta resmungar, xingar, perder amizades na Internet, invadir escolas, culpar x, y ou z. Porque a solução dos problemas está muito mais em ouvir do que em falar.

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O óbvio ululante que ulula, mas não é exatamente óbvio.


Tubarão sorveteiro
“Estudo indica que aumento de venda de sorvete atrai ataques de tubarão.”

Em tempos de memes, #hashtags, 👍, compartilhamentos e RTs, de textões com 460 palavras e testículos de 140 caracteres na “grande mídia manipuladora”, na “mídia alternativa” e nos blogs “independentes” eventualmente (quase sempre) a lógica e a obviedade que nos saltam aos olhos, que nos conquistam, que nos fazem pensar “é claro!” pode nos parecer muito coerente. Mas normalmente essa coerência não é a única possível nos “fatos” apresentados.

Em uma figurinha com meia dúzia de palavras é muito fácil chegarmos à conclusão que nos convém. Em uma frase solta é muito fácil ver um “crime” de ódio ou uma observação “perspicaz”. Temos o hábito de não observar a partir de uma visão mais global, não buscamos mais informação, por pura preguiça ou pela simples ânsia de nos confortar e autoafirmar na mesma velha opinião que temos formada sobre tudo ou ainda pela inocência de pensar que achamos justificativa para nossas fantasias e utopias de um mundo melhor.

Um princípio básico em estudos estatísticos que costuma fugir aos olhos dos leitores e dos autores (muitas vezes propositalmente) é “Correlação não é causalidade[en]”. Muitas vezes, em análises superficiais e eventualmente maliciosas, observa-se dois fatos (aparentemente) correlatos, e, como que fosse muito óbvio, determinam que um é causado pelo outro. No entanto, nem sempre o óbvio é o mais correto. Em artigos, memes, tweets, etc. normalmente se quer comprovar ou justificar uma assertiva, e isso leva a acreditar que, se A ocorre concomitantemente a B, A está causando B, porque “parece o mais óbvio”, porque “só pode ser!” ou… porque é o que se quer provar. E por conta disso (propositalmente ou não) desconsideram as outras 3 possibilidades:

  1. B pode estar causando A;
  2. Pode haver uma terceira variável, C, causando A e B;
  3. ou a concomitância pode ser uma completa coincidência.

Para piorar a situação, não estamos apenas vulneráveis à má fé ou avaliação pobre de determinados autores. Mesmo quando há métodos científicos e profissionais de avaliação e validação de dados, as conclusões tomadas a partir dos mesmos dados podem variar muito dependendo da metodologia empregada. A revista Nature publicou[en] (resumão em pt-BR) recentemente um estudo mostrando que se pode comprovar qualquer coisa usando um mesmo conjunto de informações e que a publicação de pesquisas conclusivas sem a apresentação detalhada da metodologia aplicada para se chegar àquela conclusão pode não ter nenhum valor.

Enfim, quando lhe disserem que “contra fatos não há argumentos” e/ou antes de aceitar algo como verdade absoluta só porque você (acha que) concorda, informe-se sobre quais fatos estão sendo considerados e quais estão sendo negligenciados… e certifique-se de que isso que está sendo apresentado como fatos não é na verdade apenas resultado de mais argumentos. Duvide do óbvio.