What’s Whatsapp app… and what is not.

O que é o aplicativo Whatsapp… e o que não é.

Há alguns anos, alguns amigos me falavam de um aplicativo de celular que “enviava SMSs de graça”. Naquela época, eu pagava para a Tim em torno de R$ 10,00 por mês para enviar entre 1 e ∞ mensagens de SMS. Achei estranho, pois o serviço de mensagens curtas (Short Message System, em inglês[en]) é um sistema dependente das operadoras de telefonia celular, que normalmente têm lucros com a cobrança pela prestação desse serviço. Fui, portanto, investigar o que é o Whatsapp e qual seria sua mágica.

O que é:

O Whatsapp é um mensageiro instantâneo (IM, instant messanger, em inglês) via Internet de uso pessoal, baseado em XMPP. À época de seu lançamento, em 2010, o Whatsapp apresentava apenas dois diferenciais (observe que eu não disse vantagens): é pensado exclusivamente para utilização em smartphones; e o usuário não precisa conhecer um “nome de usuário” de seus amigos, basta o número do telefone. Na verdade, o segundo diferencial não o diferencia tanto de outros IM para celular, uma vez que todos eles permitem encontrar outros usuários através da lista de contatos do celular (desde que, tendo ponderado sobre questões de segurança e privacidade, os outros usuários permitam). E o primeiro não é vantagem alguma, uma vez que limita a utilização do sistema. Atualmente, até há complementos não-oficiais para Firefox e Chrome (incluindo o desktop entre as limitadas plataformas suportadas). Desde seu lançamento há 7 anos, o Whatsapp ainda não faz mais (nem melhor) do que seus principais concorrentes (Hangouts, Facebook Messanger, Skype, Telegram e até ICQ) fazem hoje ou mesmo já faziam há 7 anos.

O que não é:

Parece fácil dizer o que é o Whatsapp, mas a sua inexplicável popularidade e a nem sempre brilhante criatividade humana tornam necessário e complicado listar o que não é o Whatsapp. A seguir, destaco os principais maus usos comumente dados ao Whatsapp.

NÃO É cliente SMS. Apesar da insistência da Whatsapp Inc. em relacionar uma coisa com a outra, o Whatsapp não envia mensagens de SMS. SMS é um sistema padronizado e dependente diretamente da infraestrutura da telefonia móvel. Apenas uma companhia de telefonia móvel é capaz de prover SMS. Mensagens de SMS são enviadas e recebidas por qualquer aparelho celular (smart ou não), já o Whatsapp depende de uma conexão com a Internet e todas as partes devem possuir clientes Whatsapp. Se você quer um IM integrado a um cliente SMS para Android ou iPhone, talvez você se interesse pelo Signal[en] (que, por sinal, utiliza o mesmo sistema de criptografia do Whatsapp).

NÃO É rede social. Tecnicamente, se pode até considerar grupos de whatsapp como redes sociais. No entanto, esta nunca foi sua função alvo e por conseguinte funciona muito mal para exercer essa função. A insistência de determinados usuários em manter hábitos de redes sociais (enviar memes, fotos pessoais, correntes, mensagens de bom dia, de boa noite, vídeos pornográficos, etc.) acaba prejudicando a função alvo, adicionando mais ruído às conversas em grupo. Além disso, não é prático enviar os memes, correntes, bons dias, etc. para cada grupo, diferente do que ocorre em uma ferramenta de rede social, onde se posta uma única vez e fica disponível para quem quiser/puder ver. E, para piorar, as pessoas acabam recebendo várias vezes as mesmas mensagens inúteis nos diversos grupos (e sendo notificados por cada uma delas), caracterizando verdadeiros SPAMs.

NÃO É plataforma de telemarketing ou e-comerce. O recente bloqueio do whatsapp pela justiça brasileira trouxe prejuízos para muitos (micro e pequenos) empresários. E como se trata de uma ferramenta de uso pessoal, qualquer prejuízo ou problema causado por falhas ou mau funcionamento (ou bloqueio judicial) não será solucionado ou ressarcido. Ou seja, prejuízo garantido. Para comunicação com clientes, melhor dar preferência a protocolos abertos e padronizados e/ou contratar um administrador privado para manutenção do sistema. No caso de e-comerce, não há outra solução: melhor (contratar alguém para) providenciar sistema próprio.

NÃO É sistema de comunicação interna institucional / corporativo. A falsa comodidade de “passar a mão no celular e enviar um zap para a equipe” pode gerar equívocos e falhas de comunicação. Mensageiros instantâneos (como o próprio Whatsapp) podem ser ótimas ferramentas para discussões passageiras ou um brainstorm (desde que mitigadas as interferências supracitadas), mas para a consolidação da informação e comunicados unilaterais não há nada pior. Comunicados oficiais e instruções importantes ficam perdidos no meio de conversas gerais (e eventualmente memes, fotos pessoais, correntes, mensagens de bom dia, de boa noite, etc.). O principal concorrente do Whatsapp, Telegram, possui uma ferramenta que resolve esse problema: Canais (para mensagens unilaterais ou comunicados)[en], mas nesses casos talvez o email ainda seja a melhor solução. Também sou a favor da boa e velha CI (comunicação interna)… em papel! Em empresas bem gerenciadas, não se descarta nunca uma reunião (de preferência com ata).

NÃO É fórum ou lista de email. Se o que quer que seja conversado ou comunicado precisa ser registrado ou consultado no futuro, então a ferramenta não é o Whatsapp. Fóruns e emails são naturalmente indexados e facilmente pesquisáveis. Enquanto que em fóruns e emails as mensagens podem ser organizadas por assunto, o Whatsapp é um buraco negro de assuntos e referências misturadas e desorganizadas. Além disso, por algum motivo qualquer, o envio de arquivos no Whatsapp é muito limitado (diferente do Telegram, por exemplo) e o recebimento e armazenamento de arquivos é muito mal gerenciado. Como se isso não bastasse, o Whatsapp limita/dificulta o compartilhamento de arquivos para ambientes externos a ele. Nesse caso, um serviço de armazenamento em núvem (Google Drive, Dropbox, OneDrive, Mega, etc.) pode ajudar, mas email ainda é o ideal.

NÃO É comunicação emergencial. Direto ao ponto: se quer resposta imediata, ligue. Se quer que alguém veja ou receba algo imediatamente, envie (por qualquer meio) e ligue.

Parece claro que de uma maneira ou de outra se pode dar todas essas utilidades (e diversas outras) a qualquer IM, no entanto quaisquer dessas utilizações improvisadas acabam sendo  ineficientes e, em alguns casos, nulas.  Para cada uma dessas utilizações existem aplicativos e/ou sistemas específicos e dedicados que certamente funcionarão de forma muito mais segura e eficiente. Se o Whatsapp ainda está longe de ser um bom IM, imagine qualquer uma dessas improvisações.

Enfim, a menos que você queira um bate-papo informal e descompromissado, enviar um arquivo ou recado dispensável, nem se dê ao trabalho de me contactar por um IM como o Whatsapp.

“Mr. Watson — Come here — I want to see you!”
Alexander Graham Bell

Mr. Watson — Come here — I want to see you!
“Sr. Watson — Venha aqui — Eu quero vê-lo!” foram as primeiras palavras ditas em um telefone e é tudo o que deveria ser necessário dizer por equipamentos de comunicação à distância.
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Em mau internetês

Quantos ós e ês poupamos ao longo de todo esse tempo em que insistimos em escrever “vc”? Quantos es’s e us economizamos trocando “estou” por “tô”? Quantos teclados poupamos? Quantas tendinites evitamos? Quanto tempo salvamos? Se é que alcançamos esses ganhos depois que, no meio desse caminho, começamos a lutar contra “corretores” ortográficos e teclados “inteligentes”.

Eu tenho a impressão de que todo esse esforço em evitar esforços, como era de se esperar (embora nunca nos tivesse sido tão óbvio), foi absolutamente em vão. Em vão, na intenção de evitar esforços, de escrever “na velocidade da Internet”. Mas parece que essa prática trouxe, sim, alguma vantagem. Ela nos deu, pelo menos, a oportunidade de não nos prendermos a determinadas regras.

Regras são sempre opressoras, e, eventualmente, até discriminatórias. Inclusive as regras ortográficas e gramaticais, opressoras na medida em que nos inflige o esforço (para alguns sobre-humano) para escrever corretamente, e discriminatórias na medida em que nos expõe ao julgamento de outrem e à classificação entre os mais instruídos e os menos instruídos.

Tem funcionado bem escrever em “internetês” e usá-lo como desculpa para o mau português. Assim será até as pessoas perceberem que há (ou haverá de haver) regras até para o internetês. E quando esse dia chegar, haveremos de dar o braço a torcer para o fato de que uma solução muito melhor teria sido nos dobrarmos às regras já tradicionais e longamente desenvolvidas da ortografia e da gramática da língua portuguesa. Talvez, nesse momento, venhamos a parar de insistir no paradoxo dos corretores que nos fazem errar. Talvez aí aceitemos que errar é humano e entendamos que aceitar não significa nos contentar.


P.S.: Não tinha a intenção de escrever um manifesto sobre ética ortográfica. A intenção inicial era falar de regras (tema que se manteve) e objetivos que se desvirtuam com o uso (tema que se perdeu no caminho). No fim das contas, escrevi sobre um tema usando o outro. 🙂

P.S.2: Não sou linguista ou professor de português, sou apenas um usuário dessa língua. Embora acredite que cada falante da língua portuguesa tem a obrigação/responsabilidade de protegê-la, também cometo meus erros e improvisos.