Em mau internetês

Quantos ós e ês poupamos ao longo de todo esse tempo em que insistimos em escrever “vc”? Quantos es’s e us economizamos trocando “estou” por “tô”? Quantos teclados poupamos? Quantas tendinites evitamos? Quanto tempo salvamos? Se é que alcançamos esses ganhos depois que, no meio desse caminho, começamos a lutar contra “corretores” ortográficos e teclados “inteligentes”.

Eu tenho a impressão de que todo esse esforço em evitar esforços, como era de se esperar (embora nunca nos tivesse sido tão óbvio), foi absolutamente em vão. Em vão, na intenção de evitar esforços, de escrever “na velocidade da Internet”. Mas parece que essa prática trouxe, sim, alguma vantagem. Ela nos deu, pelo menos, a oportunidade de não nos prendermos a determinadas regras.

Regras são sempre opressoras, e, eventualmente, até discriminatórias. Inclusive as regras ortográficas e gramaticais, opressoras na medida em que nos inflige o esforço (para alguns sobre-humano) para escrever corretamente, e discriminatórias na medida em que nos expõe ao julgamento de outrem e à classificação entre os mais instruídos e os menos instruídos.

Tem funcionado bem escrever em “internetês” e usá-lo como desculpa para o mau português. Assim será até as pessoas perceberem que há (ou haverá de haver) regras até para o internetês. E quando esse dia chegar, haveremos de dar o braço a torcer para o fato de que uma solução muito melhor teria sido nos dobrarmos às regras já tradicionais e longamente desenvolvidas da ortografia e da gramática da língua portuguesa. Talvez, nesse momento, venhamos a parar de insistir no paradoxo dos corretores que nos fazem errar. Talvez aí aceitemos que errar é humano e entendamos que aceitar não significa nos contentar.


P.S.: Não tinha a intenção de escrever um manifesto sobre ética ortográfica. A intenção inicial era falar de regras (tema que se manteve) e objetivos que se desvirtuam com o uso (tema que se perdeu no caminho). No fim das contas, escrevi sobre um tema usando o outro. 🙂

P.S.2: Não sou linguista ou professor de português, sou apenas um usuário dessa língua. Embora acredite que cada falante da língua portuguesa tem a obrigação/responsabilidade de protegê-la, também cometo meus erros e improvisos.

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