O óbvio ululante que ulula, mas não é exatamente óbvio.


Tubarão sorveteiro
“Estudo indica que aumento de venda de sorvete atrai ataques de tubarão.”

Em tempos de memes, #hashtags, 👍, compartilhamentos e RTs, de textões com 460 palavras e testículos de 140 caracteres na “grande mídia manipuladora”, na “mídia alternativa” e nos blogs “independentes” eventualmente (quase sempre) a lógica e a obviedade que nos saltam aos olhos, que nos conquistam, que nos fazem pensar “é claro!” pode nos parecer muito coerente. Mas normalmente essa coerência não é a única possível nos “fatos” apresentados.

Em uma figurinha com meia dúzia de palavras é muito fácil chegarmos à conclusão que nos convém. Em uma frase solta é muito fácil ver um “crime” de ódio ou uma observação “perspicaz”. Temos o hábito de não observar a partir de uma visão mais global, não buscamos mais informação, por pura preguiça ou pela simples ânsia de nos confortar e autoafirmar na mesma velha opinião que temos formada sobre tudo ou ainda pela inocência de pensar que achamos justificativa para nossas fantasias e utopias de um mundo melhor.

Um princípio básico em estudos estatísticos que costuma fugir aos olhos dos leitores e dos autores (muitas vezes propositalmente) é “Correlação não é causalidade[en]”. Muitas vezes, em análises superficiais e eventualmente maliciosas, observa-se dois fatos (aparentemente) correlatos, e, como que fosse muito óbvio, determinam que um é causado pelo outro. No entanto, nem sempre o óbvio é o mais correto. Em artigos, memes, tweets, etc. normalmente se quer comprovar ou justificar uma assertiva, e isso leva a acreditar que, se A ocorre concomitantemente a B, A está causando B, porque “parece o mais óbvio”, porque “só pode ser!” ou… porque é o que se quer provar. E por conta disso (propositalmente ou não) desconsideram as outras 3 possibilidades:

  1. B pode estar causando A;
  2. Pode haver uma terceira variável, C, causando A e B;
  3. ou a concomitância pode ser uma completa coincidência.

Para piorar a situação, não estamos apenas vulneráveis à má fé ou avaliação pobre de determinados autores. Mesmo quando há métodos científicos e profissionais de avaliação e validação de dados, as conclusões tomadas a partir dos mesmos dados podem variar muito dependendo da metodologia empregada. A revista Nature publicou[en] (resumão em pt-BR) recentemente um estudo mostrando que se pode comprovar qualquer coisa usando um mesmo conjunto de informações e que a publicação de pesquisas conclusivas sem a apresentação detalhada da metodologia aplicada para se chegar àquela conclusão pode não ter nenhum valor.

Enfim, quando lhe disserem que “contra fatos não há argumentos” e/ou antes de aceitar algo como verdade absoluta só porque você (acha que) concorda, informe-se sobre quais fatos estão sendo considerados e quais estão sendo negligenciados… e certifique-se de que isso que está sendo apresentado como fatos não é na verdade apenas resultado de mais argumentos. Duvide do óbvio.