Reduzir não resolve, mas não reduzir também não.

Eu entendo o discurso vitimista das pessoas contrárias à tão (levianamente) discutida redução da maioridade penal no Brasil. Vejo todos os dias o que a miséria e o abandono do Estado faz com muitas pessoas (não apenas aos adolescentes entre 16 e 18 anos). Também me sinto triste e impotente por estar dentro do sistema que poderia ajudar a solucionar muitos problemas relativos à miséria e simplesmente não poder realizar nem 1% do meu potencial para ajudar.

Me alivia, no entanto, observar que, apesar do abandono estatal (que, mesmo com anos desse populismo barato, continua absurdamente abrangente), apesar das oportunidades reduzidas, apesar da falta de educação (mesmo com toda “pátria educadora”), a esmagadora maioria dos pobres e miseráveis (que são humanos e, como qualquer humano, cometem erros, são incoerentes, tendem ao egoísmo e são gente como a gente) não descambam para a criminalidade. A questão não é (apenas) miséria ou educação, a questão é valores. Não foi na escola que aprendemos que não se deve matar, sequestrar e estuprar.

E também não estamos falando de crianças, eu, pelo menos, embora não estivesse totalmente amadurecido (e não devo estar até hoje), já tinha decidido em que trabalharia para sobreviver. Escolhi meio no escuro, mas tinha total convicção de que não seria no crime organizado ou no desorganizado. E não sei vocês, mas com idade entre 16 e 18 anos o único grande “crime” que pratiquei achando que era uma atitude normal foi votar em (e felizmente não eleger naquela ocasião) um sujeito que anos depois foi cassado por corrupção. E tenho certeza de que mesmo aquelas meninas que apanham dos país em casa, matam aula pra “namorar” e que cantam funk proibidão na rua têm consciência de que matar, por exemplo, é uma atitude que não tem volta.

Com isso quero dizer apenas o seguinte: os argumentos de falta de educação e de oportunidades são louváveis e verdadeiros, mas estão longe de ser determinantes nessa discussão. Nem vou entrar no mérito de que, com redução ou sem redução da maioridade penal, o desenvolvimento da educação e a oferta de oportunidades no Brasil tendem a continuar piorando (apesar das propagandas governistas).

Também cabe observar que na semana que vem o Estatuto da Criança e do Adolescente completa 25 anos e ao longo desse tempo, o problema de crimes cometidos por menores de idade só faz aumentar. O que evidencia, no mínimo, que algo está errado nessa forma de lidar com esse problema.

Por outro lado, concordo também que a simples redução não chega perto de resolver o problema. Mas, sinceramente, posto o que disse acima, não acho que a intenção seja resolver o problema, mas simplesmente mudar um paradigma legal. Acho que a simples redução da maioridade penal é uma tentativa de solução radical e simplista. Deveríamos discutir uma nova abordagem, não existe um número mágico, há gente com 17 anos mais madura do que gente com 50 anos. Junto a isso, há a mais variada gama de crimes, com as mais variadas gravidades, causas e consequências. Sou favorável à eliminação do conceito de maioridade penal. A penalidade (ou “recuperação” ou “ressocialização” ou chame como quiser) deve levar em conta não apenas a idade, mas também e principalmente o crime cometido de maneira combinada.

Enfim, acho toda essa discussão de redução da maioridade penal inócua. E esse fla-flu de ideologias, de esquerda e direita, de “progressistas” contra “conservadores”, de vitória ou derrota de partido X ou Y não ajudam nem um pouco e infelizmente é só isso o que move quem realmente vai decidir o assunto, nossos parlamentares. Ninguém quer realmente discutir e solucionar os problemas, querem apenas se impor.

Peter Pan
“Peter Pan é um pequeno rapaz que se recusa a crescer e que passa a vida a ter aventuras mágicas.”

A falsa discussão

Por que a discussão de qualquer assunto vem sempre imersa em desinformação, mentiras, factoides, metáforas e comparações estapafúrdias e cretinas? Não importa se o assunto é futebol ou maioridade penal, tem sempre alguém para disseminar uma informação falsa para reforçar seu ponto de vista. No fim, qual é o valor de um ponto de vista que se sustenta com mentiras e informações retorcidas? E o que se ganha se ele prevalecer? Perde-se tanto para “ganhar” uma simples discussão, apenas por uma questão de orgulho e autoafirmação… Apenas por um exercício de raciocínio, de disputa de egos e de quem tem o melhor preconceito. Pois se as pessoas se prestam a mentir para si mesmas e para as outras, o objetivo nunca foi a busca de uma solução para o problema discutido. Eu sugeriria um exercício de consciência em substituição a esse “livre pensar”.

“Beware of false knowledge; it is more dangerous than ignorance.” – George Bernard Shaw

(Há uma certa ironia no autor da citação que inspirou este texto.)

BernardShaw
“Cuidado com o falso conhecimento, é mais perigoso do que a ignorância.” – George Bernard Shaw

Como cães e gatos

Será que temos que viver sob cartilhas preestabelecidas?! Será que não se pode, por exemplo, ser contra a redução da maioridade penal e a favor do aborto? Será que não se pode ler Veja e Carta Capital? E concordar com ou discordar de ambas? Ou mesmo ora concordar ora discordar de uma ou de outra? Ou achá-las duas porcarias propagandistas. Será que não se pode ser “progressista” em um assunto e “conservador” em outro? Será que é mesmo impossível haver ricos maus e bons, bem como pobres maus e bons?

Será que é mesmo necessário que alguém junte idéias em um pacote fechado para eu propagar ou condenar? Será mesmo necessário, primeiro verificar o discurso do pastor, do líder partidário ou do presidente do sindicato, do articulista ou blogueiro preferido para saber o que eu acho, o que é certo ou o que é errado? Será que preciso de rótulos para ser ouvido ou censurado?

A verdadeira politização não está em se fixar em uma ideologia ou em um pacote de idéias, mas em buscar conhecimento daquilo que lhe é estranho. A verdadeira democracia não está apenas na liberdade de se manifestar, mas principalmente na responsabilidade de ouvir e entender aquele que, a princípio, lhe é discordante.

Que tal encerrarmos essa discussão entre surdos, rasgar essas cartilhas, abandonar essa mesma velha opinião formada sobre tudo? Já passou da hora de parar de “compartilhar” e finalmente responder “No que VOCÊ está pensando?”. Preocupemo-nos mais com o que pensamos do que com o que pensam de nós. Em um universo com quatro dimensões (conhecidas), parece uma enorme limitação viver preso em um eixo apenas com esquerda e direita.

Lição de casa:
Pesquise e responda: A quem interessa que nos mantenhamos como cães e gatos?

Boucherie canine et feline
“Açougue canino e felino.”

Vírus Michelangelo

“CUIDADO! Hoje é o dia de ação do vírus Michelangelo! Se você andou usando disquetes suspeitos e não tem um imunizador instalado no seu MS-DOS, não ligue seu PC hoje!

Vírus Michelangelo pode ter infectado entre 10.000 e 20.000 PCs e hoje é o dia de sua ação e poderá causar perda completa de dados nesses computadores.”

Essa reportagem do início da década de 90 mostra bem como era a situação de pânico causada pelo desenvolvimento de vírus de computador na era pré-Internet. Se hoje em dia é muito mais fácil para o seu computador contrair um vírus qualquer, é também muito mais fácil se livrar dele. Naquela época, era necessário comprar ou piratear imunizadores, hoje conhecidos como anti-vírus, instalá-los e configurá-los utilizando linhas de comando no DOS e torcer para que você tenha conseguido a atualização necessária para evitar vírus fatais como o Michelangelo.

Em mau internetês

Quantos ós e ês poupamos ao longo de todo esse tempo em que insistimos em escrever “vc”? Quantos es’s e us economizamos trocando “estou” por “tô”? Quantos teclados poupamos? Quantas tendinites evitamos? Quanto tempo salvamos? Se é que alcançamos esses ganhos depois que, no meio desse caminho, começamos a lutar contra “corretores” ortográficos e teclados “inteligentes”.

Eu tenho a impressão de que todo esse esforço em evitar esforços, como era de se esperar (embora nunca nos tivesse sido tão óbvio), foi absolutamente em vão. Em vão, na intenção de evitar esforços, de escrever “na velocidade da Internet”. Mas parece que essa prática trouxe, sim, alguma vantagem. Ela nos deu, pelo menos, a oportunidade de não nos prendermos a determinadas regras.

Regras são sempre opressoras, e, eventualmente, até discriminatórias. Inclusive as regras ortográficas e gramaticais, opressoras na medida em que nos inflige o esforço (para alguns sobre-humano) para escrever corretamente, e discriminatórias na medida em que nos expõe ao julgamento de outrem e à classificação entre os mais instruídos e os menos instruídos.

Tem funcionado bem escrever em “internetês” e usá-lo como desculpa para o mau português. Assim será até as pessoas perceberem que há (ou haverá de haver) regras até para o internetês. E quando esse dia chegar, haveremos de dar o braço a torcer para o fato de que uma solução muito melhor teria sido nos dobrarmos às regras já tradicionais e longamente desenvolvidas da ortografia e da gramática da língua portuguesa. Talvez, nesse momento, venhamos a parar de insistir no paradoxo dos corretores que nos fazem errar. Talvez aí aceitemos que errar é humano e entendamos que aceitar não significa nos contentar.


P.S.: Não tinha a intenção de escrever um manifesto sobre ética ortográfica. A intenção inicial era falar de regras (tema que se manteve) e objetivos que se desvirtuam com o uso (tema que se perdeu no caminho). No fim das contas, escrevi sobre um tema usando o outro. 🙂

P.S.2: Não sou linguista ou professor de português, sou apenas um usuário dessa língua. Embora acredite que cada falante da língua portuguesa tem a obrigação/responsabilidade de protegê-la, também cometo meus erros e improvisos.

Há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…

Álvaro de Campos, 15/01/1928.