Si vis amare ama

​”Se quer ser amado, ame.”

Não há meio termo, não há jeitinho. Não se trata apenas de “dar para receber”, mas de receber apenas aquilo que é dado.

A terceira lei de Newton não é de Newton, é da Física, Isaac Newton apenas a descreveu. “Física” do grego φύσις (físis), Natureza. O princípio da ação e reação é uma lei da Natureza. Portanto, rancor não pode te trazer nada de bom. Alimentar o ódio, não pode trazer nada senão mais ódio, só que contra você.

Mas apenas não alimentar o ódio pode não ser o suficiente. Esperar que a mudança venha dos outros, pode deixar todos presos à primeira lei da Natureza descrita por Newton, a lei da inercia. Se nenhuma força for aplicada ao sistema, tudo continua como está. E das diversas forças que você tem dentro de si, o amor, em suas mais diversas acepções, é a única capaz de explorar a terceira lei a seu favor. Não seja apenas um corpo inerte na natureza, apenas respondendo naturalmente aos estímulos, respondendo ao ódio com ódio, ao desgosto, com desgosto. Na base do olho por olho, dente por dente, acaba todo mundo cego e banguela. Você tem a força necessária para mudar a ordem das coisas a seu favor, use-a.

Só certifique-se de que está imprimindo essa força na direção certa, pois ainda há a segunda lei descrita por Newton.

P.S.: Perdoe os clichês.

Governados ou governantes

Um erro fundamental de ocupantes de cargos eletivos é a dedicação exclusiva àqueles que o elegeram. Se esquecem de que, embora tenham sido escolhidos por apenas uma parcela da sociedade, eles estão lá para servir a todos. No entanto, há um erro mais sutil e de consequências igualmente graves: considerar que aquela parcela que os elegeram pensa exatamente como eles e aprova todas as suas ações. Isso é especialmente grave em cargos do executivo, que concentram em um único eleito os votos dos mais variados motivos.

Tanto eleitos quanto eleitores têm que manter em mente que eleições não são um cheque em branco assinado. Eleitos devem conquistar diariamente aqueles que o colocaram lá (e também os que não colocaram), agora não com propagandas e discursos vazios ou demagógicos, mas com atitude. Devem entender que aqueles que lhes deram seus votos não são uma massa homogênea com idéias e valores congruentes aos seus. Ele deve buscar conhecer e entender os anseios mais variados dispersos nessa massa e dar uma resposta positiva para eles. Do mesmo modo, eleitores não devem “lavar as mãos” e deixar rolar (ladeira acima ou ladeira abaixo), como se não tivesse mais responsabilidade sobre o bem público. A responsabilidade pelo apoio, pela cobrança e por se fazer ouvir é de todos, de quem votou no eleito, de quem votou nos derrotados e de quem se absteve. Colocar a culpa nos outros é a assunção da incapacidade de resolver seus próprios problemas e a abdicação do direito de tê-los resolvidos.

Isso não tem sido respeitado por nenhuma das partes e nos trouxe ao momento singular em que certos ocupantes de cargos públicos admitem haver “um afastamento entre a classe política e a sociedade”, mas ao mesmo tempo, esses mesmos “representantes do povo” que admitem não estar representando o povo não largam o osso (e não lhes têm o osso tomado).

Enquanto as pessoas não assumirem seus papéis, não adianta resmungar, xingar, perder amizades na Internet, invadir escolas, culpar x, y ou z. Porque a solução dos problemas está muito mais em ouvir do que em falar.

george-du-maurier-an-abscent-audience

What’s Whatsapp app… and what is not.

O que é o aplicativo Whatsapp… e o que não é.

Há alguns anos, alguns amigos me falavam de um aplicativo de celular que “enviava SMSs de graça”. Naquela época, eu pagava para a Tim em torno de R$ 10,00 por mês para enviar entre 1 e ∞ mensagens de SMS. Achei estranho, pois o serviço de mensagens curtas (Short Message System, em inglês[en]) é um sistema dependente das operadoras de telefonia celular, que normalmente têm lucros com a cobrança pela prestação desse serviço. Fui, portanto, investigar o que é o Whatsapp e qual seria sua mágica.

O que é:

O Whatsapp é um mensageiro instantâneo (IM, instant messanger, em inglês) via Internet de uso pessoal, baseado em XMPP. À época de seu lançamento, em 2010, o Whatsapp apresentava apenas dois diferenciais (observe que eu não disse vantagens): é pensado exclusivamente para utilização em smartphones; e o usuário não precisa conhecer um “nome de usuário” de seus amigos, basta o número do telefone. Na verdade, o segundo diferencial não o diferencia tanto de outros IM para celular, uma vez que todos eles permitem encontrar outros usuários através da lista de contatos do celular (desde que, tendo ponderado sobre questões de segurança e privacidade, os outros usuários permitam). E o primeiro não é vantagem alguma, uma vez que limita a utilização do sistema. Atualmente, até há complementos não-oficiais para Firefox e Chrome (incluindo o desktop entre as limitadas plataformas suportadas). Desde seu lançamento há 7 anos, o Whatsapp ainda não faz mais (nem melhor) do que seus principais concorrentes (Hangouts, Facebook Messanger, Skype, Telegram e até ICQ) fazem hoje ou mesmo já faziam há 7 anos.

O que não é:

Parece fácil dizer o que é o Whatsapp, mas a sua inexplicável popularidade e a nem sempre brilhante criatividade humana tornam necessário e complicado listar o que não é o Whatsapp. A seguir, destaco os principais maus usos comumente dados ao Whatsapp.

NÃO É cliente SMS. Apesar da insistência da Whatsapp Inc. em relacionar uma coisa com a outra, o Whatsapp não envia mensagens de SMS. SMS é um sistema padronizado e dependente diretamente da infraestrutura da telefonia móvel. Apenas uma companhia de telefonia móvel é capaz de prover SMS. Mensagens de SMS são enviadas e recebidas por qualquer aparelho celular (smart ou não), já o Whatsapp depende de uma conexão com a Internet e todas as partes devem possuir clientes Whatsapp. Se você quer um IM integrado a um cliente SMS para Android ou iPhone, talvez você se interesse pelo Signal[en] (que, por sinal, utiliza o mesmo sistema de criptografia do Whatsapp).

NÃO É rede social. Tecnicamente, se pode até considerar grupos de whatsapp como redes sociais. No entanto, esta nunca foi sua função alvo e por conseguinte funciona muito mal para exercer essa função. A insistência de determinados usuários em manter hábitos de redes sociais (enviar memes, fotos pessoais, correntes, mensagens de bom dia, de boa noite, vídeos pornográficos, etc.) acaba prejudicando a função alvo, adicionando mais ruído às conversas em grupo. Além disso, não é prático enviar os memes, correntes, bons dias, etc. para cada grupo, diferente do que ocorre em uma ferramenta de rede social, onde se posta uma única vez e fica disponível para quem quiser/puder ver. E, para piorar, as pessoas acabam recebendo várias vezes as mesmas mensagens inúteis nos diversos grupos (e sendo notificados por cada uma delas), caracterizando verdadeiros SPAMs.

NÃO É plataforma de telemarketing ou e-comerce. O recente bloqueio do whatsapp pela justiça brasileira trouxe prejuízos para muitos (micro e pequenos) empresários. E como se trata de uma ferramenta de uso pessoal, qualquer prejuízo ou problema causado por falhas ou mau funcionamento (ou bloqueio judicial) não será solucionado ou ressarcido. Ou seja, prejuízo garantido. Para comunicação com clientes, melhor dar preferência a protocolos abertos e padronizados e/ou contratar um administrador privado para manutenção do sistema. No caso de e-comerce, não há outra solução: melhor (contratar alguém para) providenciar sistema próprio.

NÃO É sistema de comunicação interna institucional / corporativo. A falsa comodidade de “passar a mão no celular e enviar um zap para a equipe” pode gerar equívocos e falhas de comunicação. Mensageiros instantâneos (como o próprio Whatsapp) podem ser ótimas ferramentas para discussões passageiras ou um brainstorm (desde que mitigadas as interferências supracitadas), mas para a consolidação da informação e comunicados unilaterais não há nada pior. Comunicados oficiais e instruções importantes ficam perdidos no meio de conversas gerais (e eventualmente memes, fotos pessoais, correntes, mensagens de bom dia, de boa noite, etc.). O principal concorrente do Whatsapp, Telegram, possui uma ferramenta que resolve esse problema: Canais (para mensagens unilaterais ou comunicados)[en], mas nesses casos talvez o email ainda seja a melhor solução. Também sou a favor da boa e velha CI (comunicação interna)… em papel! Em empresas bem gerenciadas, não se descarta nunca uma reunião (de preferência com ata).

NÃO É fórum ou lista de email. Se o que quer que seja conversado ou comunicado precisa ser registrado ou consultado no futuro, então a ferramenta não é o Whatsapp. Fóruns e emails são naturalmente indexados e facilmente pesquisáveis. Enquanto que em fóruns e emails as mensagens podem ser organizadas por assunto, o Whatsapp é um buraco negro de assuntos e referências misturadas e desorganizadas. Além disso, por algum motivo qualquer, o envio de arquivos no Whatsapp é muito limitado (diferente do Telegram, por exemplo) e o recebimento e armazenamento de arquivos é muito mal gerenciado. Como se isso não bastasse, o Whatsapp limita/dificulta o compartilhamento de arquivos para ambientes externos a ele. Nesse caso, um serviço de armazenamento em núvem (Google Drive, Dropbox, OneDrive, Mega, etc.) pode ajudar, mas email ainda é o ideal.

NÃO É comunicação emergencial. Direto ao ponto: se quer resposta imediata, ligue. Se quer que alguém veja ou receba algo imediatamente, envie (por qualquer meio) e ligue.

Parece claro que de uma maneira ou de outra se pode dar todas essas utilidades (e diversas outras) a qualquer IM, no entanto quaisquer dessas utilizações improvisadas acabam sendo  ineficientes e, em alguns casos, nulas.  Para cada uma dessas utilizações existem aplicativos e/ou sistemas específicos e dedicados que certamente funcionarão de forma muito mais segura e eficiente. Se o Whatsapp ainda está longe de ser um bom IM, imagine qualquer uma dessas improvisações.

Enfim, a menos que você queira um bate-papo informal e descompromissado, enviar um arquivo ou recado dispensável, nem se dê ao trabalho de me contactar por um IM como o Whatsapp.

“Mr. Watson — Come here — I want to see you!”
Alexander Graham Bell

Mr. Watson — Come here — I want to see you!
“Sr. Watson — Venha aqui — Eu quero vê-lo!” foram as primeiras palavras ditas em um telefone e é tudo o que deveria ser necessário dizer por equipamentos de comunicação à distância.

O óbvio ululante que ulula, mas não é exatamente óbvio.


Tubarão sorveteiro
“Estudo indica que aumento de venda de sorvete atrai ataques de tubarão.”

Em tempos de memes, #hashtags, 👍, compartilhamentos e RTs, de textões com 460 palavras e testículos de 140 caracteres na “grande mídia manipuladora”, na “mídia alternativa” e nos blogs “independentes” eventualmente (quase sempre) a lógica e a obviedade que nos saltam aos olhos, que nos conquistam, que nos fazem pensar “é claro!” pode nos parecer muito coerente. Mas normalmente essa coerência não é a única possível nos “fatos” apresentados.

Em uma figurinha com meia dúzia de palavras é muito fácil chegarmos à conclusão que nos convém. Em uma frase solta é muito fácil ver um “crime” de ódio ou uma observação “perspicaz”. Temos o hábito de não observar a partir de uma visão mais global, não buscamos mais informação, por pura preguiça ou pela simples ânsia de nos confortar e autoafirmar na mesma velha opinião que temos formada sobre tudo ou ainda pela inocência de pensar que achamos justificativa para nossas fantasias e utopias de um mundo melhor.

Um princípio básico em estudos estatísticos que costuma fugir aos olhos dos leitores e dos autores (muitas vezes propositalmente) é “Correlação não é causalidade[en]”. Muitas vezes, em análises superficiais e eventualmente maliciosas, observa-se dois fatos (aparentemente) correlatos, e, como que fosse muito óbvio, determinam que um é causado pelo outro. No entanto, nem sempre o óbvio é o mais correto. Em artigos, memes, tweets, etc. normalmente se quer comprovar ou justificar uma assertiva, e isso leva a acreditar que, se A ocorre concomitantemente a B, A está causando B, porque “parece o mais óbvio”, porque “só pode ser!” ou… porque é o que se quer provar. E por conta disso (propositalmente ou não) desconsideram as outras 3 possibilidades:

  1. B pode estar causando A;
  2. Pode haver uma terceira variável, C, causando A e B;
  3. ou a concomitância pode ser uma completa coincidência.

Para piorar a situação, não estamos apenas vulneráveis à má fé ou avaliação pobre de determinados autores. Mesmo quando há métodos científicos e profissionais de avaliação e validação de dados, as conclusões tomadas a partir dos mesmos dados podem variar muito dependendo da metodologia empregada. A revista Nature publicou[en] (resumão em pt-BR) recentemente um estudo mostrando que se pode comprovar qualquer coisa usando um mesmo conjunto de informações e que a publicação de pesquisas conclusivas sem a apresentação detalhada da metodologia aplicada para se chegar àquela conclusão pode não ter nenhum valor.

Enfim, quando lhe disserem que “contra fatos não há argumentos” e/ou antes de aceitar algo como verdade absoluta só porque você (acha que) concorda, informe-se sobre quais fatos estão sendo considerados e quais estão sendo negligenciados… e certifique-se de que isso que está sendo apresentado como fatos não é na verdade apenas resultado de mais argumentos. Duvide do óbvio.

Evolução?

Evolution of the Desk
Ficou tudo menor, mais escondido, dependendo de processamento e memórias virtuais. Ficou tudo mais difícil de manipular, preso dentro de telas cada vez menores, limitando nosso campo visual e o alcance de nossas mãos.
Em lugar de breves movimentos dos olhos, dezenas de alt+tab’s. Em lugar de dez dedos, duas mãos e dois braços, um punho e um dedo (eventualmente mais outro).
Isso para não falar da desvirtuação e eventual completa eliminação da função de determinados elementos na cena.
Quanto à economia de espaço e papel não há o que questionar, mas no que diz respeito a eficiência e produtividade, tenho sérias dúvidas. Ainda há muito o que evoluir.

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O vídeo original (completo e com melhor qualidade) está na página do Best Reviews. Também tem artigos sobre o vídeo (em inglês), uma mera peça publicitária supostamente criada a partir de um estudo do Harvard Innovation Lab.